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A presença feminina nas arquibancadas: das baterias aos leques

Foto do escritor: Liv Estolano
Liv Estolano
1 de set.
15 min de leitura

Atualizado: há 16 horas

A rejeição do feminino no universo futebolístico ao longo da história

Por Lara Sena, Liv Estolano e Lívia Vale

O futebol chega ao Brasil em 1894, trazido pelo paulista Charles William Miller após seu retorno da Inglaterra. Com ele chegaram as primeiras bolas, chuteiras e livros de regras, consagrando-o como o pai do futebol. As mulheres sempre estiveram presentes nas arquibancadas brasileiras. No início, essa presença acontecia como acompanhantes dos homens, que iam jogar e torcer.


Na década de 50, começam os movimentos das Torcidas Organizadas, e a figura do chefe da torcida ganha destaque. Alguns anos depois, uma mulher assumiria pela primeira vez esse posto e se tornaria uma das figuras mais importantes da história das arquibancadas brasileiras, uma trajetória que esta reportagem retoma mais à frente. Desde então, a presença feminina nunca deixou de existir nos estádios, e foi pioneira em ditar modos de torcer.


Na última década, por influência especialmente da cultura ballroom advinda da comunidade LGBTQIAPN+, iniciou-se o uso em massa de leques em shows, com coreografias e a famosa “bateção de leque”, que produz um som característico, adorado por muitas pessoas. Esse movimento esteve muito presente em diversos festivais, como o Lollapalooza, e também em shows do evento anual Todo Mundo no Rio, que contou com apresentações de Madonna, Lady Gaga e Shakira.


Em 2025, diversos coletivos femininos de futebol adotaram o uso de leques nas arquibancadas como uma nova forma de torcer para seus respectivos times. O calor crescente na cidade do Rio de Janeiro, agravado pelos corpos que vibram em conjunto na mesma arquibancada, fez com que essa iniciativa surgisse. A necessidade de amenizar o calor se uniu à estética visual e sonora, quando essas mulheres notaram que o item poderia ser uma forma de apoiar o time, seja por meio das estampas, seja pelo barulho do bater dos leques.


No entanto, foram vítimas de diversos ataques e ameaças de outros torcedores, rivais ou apoiadores do mesmo time, sob a justificativa de que o uso de leques nos estádios é um empecilho à experiência de outros torcedores e seria um desrespeito à tradição da arquibancada. Os argumentos ignoram o pioneirismo feminino nos modos de torcer pelo futebol no país e também excluem a possibilidade de inovação nesse espaço, evidenciando a misoginia ainda muito latente no universo futebolístico. É essa reação, e o que ela revela, que essa reportagem acompanha a seguir.


Os leques e a tradição da violência

Leques dos coletivos Flacalcinha, TricoFlores e Fogazelas. FONTE: Reprodução/ @flacalcinha.oficial, @TricoFloresffc e @fogazelas via INSTAGRAM.
Leques dos coletivos Flacalcinha, TricoFlores e Fogazelas. FONTE: Reprodução/ @flacalcinha.oficial, @TricoFloresffc e @fogazelas via INSTAGRAM.

A camisa rosa do coletivo chegou antes de Fernanda Mattos. O apelido FOGAZELAS se destaca no centro do uniforme preto em fonte cursiva, no mesmo tom de rosa que colore a gola e as chamas estampadas na parte inferior da peça. Pouco depois das 10 horas da manhã, Fernanda se sentou timidamente no café com sua saia plissada, maquiagem feita e o leque em mãos. Ela sorri ao contar que essa é exatamente a forma como gosta de frequentar os jogos do Botafogo, e que essa escolha não é aleatória. Para ela e o restante do movimento, é uma maneira de expressar a própria identidade enquanto torcem.


A fala de Fernanda reflete um cenário compartilhado por muitas outras mulheres que acompanham o futebol no Brasil. A poucos quilômetros dali, seja no Maracanã ou em São Januário, algumas torcedoras se vestem de maneira semelhante, enquanto outras procuram espaços onde possam fazê-lo com segurança e sem julgamentos. O modo de se portar, de torcer e de aparecer nas arquibancadas ainda é motivo de questionamentos sobre a paixão e o conhecimento sobre o esporte e os clubes. Quem foge desse padrão imposto pelas torcidas frequentemente enfrenta hostilidade.

Os ataques direcionados aos coletivos começaram a partir da iniciativa do coletivo TricoFlores de produzir leques temáticos do Fluminense, a fim de ajudar a reduzir o calor nos estádios, além de incluir também um item voltado para mulheres e para a comunidade LGBTQIAPN+ nas arquibancadas. No entanto, o que era para ser apenas um objeto de alívio térmico e inclusão se tornou o estopim para uma série de agressões nas redes sociais, principalmente na plataforma X (antigo Twitter), onde diversos torcedores, em sua grande maioria do sexo masculino, alegaram que o uso do utensílio enfraqueceria a imagem do time e iria contra a tradição das arquibancadas. As integrantes do FlaCalcinha relatam que receberam mensagens de intimidação inicialmente através do X; no entanto, o ocorrido tomou proporções maiores, com a mãe de Maria Gabriela, membro do coletivo, recebendo ameaças em seu telefone pessoal.


Para as meninas do coletivo flamenguista, não houve leveza na entrevista. Suas expressões e sua linguagem corporal mostravam o quanto a situação afetou não só seu momento de lazer nos estádios, como também suas vidas pessoais. Maria Gabriela Monteiro, a líder do grupo, se portava com a firmeza de quem precisou encarar um tribunal online que atravessou as barreiras da internet e chegou até sua casa, com ameaças à sua integridade e também à sua vida. Suas companheiras Elisa Araújo e Brenda Rodrigues não eram muito diferentes, exceto por uma, Eduarda Campos, que sorria e se recusava a permitir que os ataques interferissem em seu amor pelo time.  Ao falar sobre a união e sobre como as meninas demonstraram apoio umas às outras, ela sorria e expressava orgulho do trabalho feito pelas organizadoras.


Em meio a diversos xingamentos, frentes femininas e torcedoras de outros escudos prestaram apoio às meninas do FlaCalcinha, relatando também suas próprias experiências negativas ao adotarem a ideia dos leques e manifestando solidariedade em relação à situação delicada. Contudo, o apoio se limitou apenas às bancadas femininas; as diretorias oficiais do Fluminense, Flamengo e Botafogo não vieram a público dar nenhum comunicado ou demonstração de suporte à situação vivida pelas torcedoras.


Fernanda Lipke, da TricoFlores, afirma que, embora entenda que as pessoas responsáveis pelas redes sociais não possuam autonomia para realizar declarações institucionais, sentiu falta de mensagens de acolhimento vindas de dentro dos clubes. Apesar de demonstrarem frustração com a falta de posicionamento oficial, todas reafirmaram que sua devoção pelas instituições segue inabalável.


Os coletivos femininos surgem nesse espaço de silêncio institucional como uma forma de resposta coletiva aos ataques e à exclusão. Muito além das caravanas, esses grupos funcionam como redes de segurança, que buscam desmistificar e democratizar o ambiente do estádio, reunindo torcedoras nos dias de jogo e proporcionando um espaço saudável para apoiar o time. Ao acolherem aquelas que são desencorajadas pela hostilidade das arquibancadas, os coletivos incentivam novas gerações de mulheres a frequentar e a consumir o futebol de um modo inteiramente novo, livre dos moldes e das amarras comportamentais historicamente impostos pela hegemonia masculina.


Afinal, a motivação por trás da existência desses grupos vai muito além do uso de leques ou adereços estéticos. Mas essa reação a um simples objeto de estádio não nasce do nada, e se junta a mais de um século de tentativas de apagar o protagonismo feminino nas arquibancadas. Um apagamento que começa, ironicamente, no próprio momento em que a palavra “torcida” foi criada.


A história da torcida é feminina

No Brasil, conhecido como país do futebol, o esporte nem sempre foi tão popular e acessível. No século XX, seu público ainda era majoritariamente burguês: apenas pessoas com alto poder financeiro conseguiam assistir a partidas de futebol. Os termos e as gírias também não eram acessíveis ao grande público: “árbitro”, “partida” e “técnico” são exemplos de termos que até então não existiam, e se falava, na época, assim como se fala na Inglaterra até hoje, “referee”, “match” e “captain”.


Apesar do apagamento histórico em detrimento do aumento da misoginia e do preconceito dentro do esporte, há presença feminina nas arquibancadas desde os primórdios do futebol no Brasil. As mulheres fazem parte da história do futebol, e principalmente da torcida, desde o início. Afinal, é por causa delas que o termo torcida se tornou popular no país do futebol.


Em 1910, o cronista Henrique Coelho Neto, conhecido por escrever o hino do Fluminense e publicar diversas crônicas sobre os jogos e a vida nos estádios, foi o responsável por popularizar o termo torcida. As mulheres, vestidas à europeia no calor tropical do Brasil, encontravam-se suadas e nervosas durante as partidas. Assim, torciam seus lenços e luvas para aliviar o calor e a tensão. Coelho Neto, ao observar esse comportamento, escreveu, em uma de suas mais famosas crônicas, a frase:


"Enquanto eles jogam, elas torcem."

Assim, com essa pequena frase, os termos torcida e torcedor(a) nasceram e se popularizaram no meio do futebol brasileiro.


Fotos de Dulce Rosalina e trecho retirado da revista Manchete. FONTE: Reprodução/Netvasco
Fotos de Dulce Rosalina e trecho retirado da revista Manchete. FONTE: Reprodução/Netvasco

Apesar de ter tido início na torcida do Fluminense, um grande destaque feminino ocorreu na torcida do Vasco da Gama: Dulce Rosalina foi a primeira mulher no Brasil a se tornar chefe de uma torcida organizada. Tia Dulce, como era chamada, foi casada com Ponce de Léon, atacante que atuou em times como Botafogo, Palmeiras e o próprio Vasco da Gama. Em 1956, aos 22 anos, Dulce assumiu a presidência da Torcida Organizada do Vasco (TOV), tornando-se a primeira mulher a presidir uma torcida organizada.


Seu amor pelo esporte veio antes mesmo de seu casamento com o atacante, e sua identidade de torcedora sempre se sobrepôs à sua vida pessoal. Duas de suas grandes contribuições permeiam a maneira de torcer até os dias de hoje: Dulce implementou a chuva de papel picado e o concurso de bateria e, durante seus 20 anos de presidência na TOV, foi eleita “melhor torcedora” pela Revista dos Esportes, uma das maiores revistas esportivas da época.


Após 20 anos na presidência da TOV, em 1976, por discordâncias políticas com o novo presidente do clube, Dulce renunciou ao cargo de presidente da TOV para fundar a “RenoVascão”. A presença de Dulce Rosalina nas arquibancadas cariocas quebrou diversos paradigmas comuns no meio futebolístico, como o de que mulheres não entendem de futebol e só se aproximam do esporte com a intenção de se relacionar com jogadores. Isso foi algo que Dulce conseguiu desafiar, apesar de ter sido casada com Ponce de Léon. Dessa forma, Dulce se tornou uma figura extremamente forte para a torcida do Vasco da Gama, principalmente por trazer um caráter social e político ao cotidiano da torcida.


Apesar de o início do futebol ser marcado pela presença feminina nas torcidas, os estádios e o meio esportivo ainda são espaços onde o preconceito contra a mulher é predominante, o que torna cada vez mais difícil a permanência das mulheres nas arquibancadas.


Casos de violência sexual, física e verbal fazem parte do cotidiano da presença feminina no estádio. E o risco não existe apenas para aquelas que frequentam esses ambientes, já que, segundo dados do Senado de 2024, a violência contra a mulher aumenta 21% em dias de jogo em todo o Brasil. Por ser um esporte marcado pela forte presença masculina, somada à enorme quantidade de denúncias de assédio e violência, assim como manifestações de preconceito na internet e no cotidiano, muitas mulheres acabam se distanciando de sua paixão pelo futebol por não conseguirem se sentir seguras nos ambientes futebolísticos.


Historicamente, os homens estão muito atrelados ao futebol, não só por sua presença no campo e nas arquibancadas, mas também por sua grande influência futebolística em suas famílias. Grande parte das pessoas tem sua vida no futebol iniciada, seja como jogador, seja como torcedor, por influências familiares masculinas, como avôs e pais. Porém, atualmente, de acordo com pesquisas realizadas pela acadêmica Soraya Barreto em seu livro “Mulheres no campo”, há um número crescente de mulheres que têm o futebol introduzido em suas vidas por outras mulheres, sejam elas da família, sejam amigas. Em entrevista, ela também comenta sobre a importância e a presença de coletivos femininos nas arquibancadas.


“A maioria vai através dos homens, mas há um número considerável de mulheres que foram introduzidas por outras mulheres da própria família ou por amigas. O que é muito interessante, porque há um movimento de arquibancada, né? […] Onde começa com mulheres e jovens se encontrando para irem ao estádio juntas por conta da violência, do assédio etc. E muitas dessas meninas, desses movimentos, me responderam que começaram a ir por conta de outras amigas. Tinham interesse, mas tinham medo, né? E começaram a ir.”, afirma Soraya Barreto.


A pesquisadora, ao analisar o caso dos leques no início deste ano, discorre sobre como o uso dos leques nasce no movimento LGBTQIAPN+, seja para protestar, seja para festejar, e foi adotado também pelos movimentos femininos. Consequentemente, em ambientes misóginos como o futebol, rejeita-se tudo aquilo que está atrelado ao feminino. O fato do leque ser um objeto vinculado ao feminino, mesmo que na mão de um homem, seja ele LGBTQIAPN+ ou não, o torna indesejado, e aquele que o carrega se torna um alvo sobre o qual é despejado todo o preconceito e o repúdio ao feminino no meio futebolístico.


Entrevista com Soraya Barreto, pesquisadora e escritora do livro "Mulheres no campo''.

Essa lógica de vigilância e punição não fica só no campo simbólico das redes sociais, ela também se manifesta, de forma direta, no corpo das mulheres dentro do próprio estádio.


O pacto masculino entre torcedores

Em 2026, a presença feminina nos estádios continua assombrada pela mesma insegurança de décadas passadas. Hoje, mais de 70% das torcedoras de futebol afirmam já ter sentido medo ou receio de ir a um estádio. A pesquisa coordenada pela Universidade Estácio de Sá (UNESA) aponta que cerca de 65,5% das torcedoras já sofreram algum tipo de assédio ou ato misógino no ambiente esportivo.


A modelo Ella Costa, em abril de 2026, passou a fazer parte dessas estatísticas após ser assediada durante as comemorações de uma partida entre Botafogo e Chapecoense. Torcedora do Fluminense, a modelo afirma gostar de futebol de forma geral, não apenas das partidas de seu time. Ao receber o convite de um amigo para conhecer o Estádio Nilton Santos e prestigiar a partida, aceitou.


Após o jogo, os torcedores se reuniram em um bar próximo, conhecido como Kzinha Cultural, ponto de encontro tradicional dos torcedores botafoguenses. A comemoração pós-jogo transcorria normalmente até o momento em que Ella foi ao banheiro e foi seguida pelo fotógrafo Marcos Silva, que acompanhava seu grupo de amigos.

Ele a seguiu até o local e a beijou à força. A jovem de 24 anos ressalta que não houve qualquer tipo de consentimento e que o afastou imediatamente, sendo necessária a ajuda de um amigo para contê-lo.


Ao relatar o ocorrido nas redes sociais, recebeu muito apoio de coletivos como o TricoFlores, do qual faz parte, e também de outras torcidas, como a torcida organizada botafoguense Fogoró. Após a exposição do assediador, outras mulheres procuraram Ella para relatar que também haviam sido assediadas pelo mesmo homem.


No entanto, ela também foi alvo de diversos comentários negativos que minimizavam o ocorrido, sobretudo os que questionavam o que uma tricolor estaria fazendo em uma partida de um time adversário. Além disso, comentários que defendiam o assediador, com falas como “já havia ouvido outros casos sobre esse mesmo homem, mas sempre o achei tão resenha”, surgiram após a publicação de sua denúncia. Esse tipo de fala expõe um mecanismo de pacto entre os homens torcedores, em que atos criminosos contra mulheres são relevados.


Comentários recebidos por Ella que questionam e minimizam o caso de assédio. FONTE: Reprodução/X.
Comentários recebidos por Ella que questionam e minimizam o caso de assédio. FONTE: Reprodução/X.

Ella Costa destacou a importância de uma denúncia pública para que outras mulheres possam se sentir confortáveis para expor também os casos de assédio e violência dos quais foram vítimas.


O caso de Ella evidencia como a violência pode explodir num único episódio. Mas, para muitas torcedoras, a hostilidade se manifesta de forma mais sútil, como em normas não escritas que definem, dia após dia, quem pode ocupar a arquibancada e de que forma.


As regras invisíveis do estádio

A torcida pela ótica de Fernanda Lipke. FONTE: Reprodução/ @fefalipke via Instagram
A torcida pela ótica de Fernanda Lipke. FONTE: Reprodução/ @fefalipke via Instagram

A realidade descrita na pesquisa da UNESA é vivida também pela torcedora Fernanda Lipke. Tricolor desde o berço, Fernanda carrega o amor pelo Fluminense desde a infância, principalmente por influência de seu avô, Luiz Carlos Lipke. Filha de um flamenguista e de uma tricolor, sua família é composta inteiramente por torcedores, e a paixão pelo futebol faz parte do cotidiano familiar.


Embora frequente o estádio há anos, Fernanda geralmente vai acompanhada por familiares, mesmo sendo o Maracanã um espaço bastante conhecido por ela. No Dia Internacional das Mulheres de 2026, durante a final do Campeonato Carioca entre Fluminense e Flamengo, a torcedora foi vítima de assédio verbal dentro do estádio após se afastar brevemente de sua família.


“Tive um problema quando decidi andar sozinha para encontrar minhas amigas. Alguns homens mexeram comigo. […] Eu estava sozinha, subindo a rampa da parte Sul para encontrar o pessoal do TricoFlores, e alguns homens mexeram comigo. Fiquei tão mexida que não me lembro exatamente do que falaram, mas não foram coisas legais.”, relata Fernanda.


Após o episódio, a torcedora afirma que não se sente mais segura para ir sozinha ao estádio. O relato não é isolado e reflete um padrão mais amplo: 83,6% das mulheres frequentam os jogos de futebol somente acompanhadas, de acordo com a pesquisa da Universidade Estácio de Sá. “Desde então, eu não consigo me imaginar indo sozinha. Foram apenas 15 minutos longe da minha mãe e do meu padrinho naquele dia, e já aconteceu uma coisa dessas”, afirma a tricolor.


‘Fefa’, como é conhecida nas redes sociais, é integrante do coletivo feminino TricoFlores: grupo que reúne torcedoras do Fluminense e promove a presença feminina nas arquibancadas do clube, e produz conteúdos digitais sobre o time. Mesmo ocupando esse espaço de forma ativa, Fernanda continua sendo alvo de hostilidade on-line. A tricolor conta que torcedores frequentemente recorrem a seus perfis para ofendê-la, descredibilizar sua torcida e questionar seus conhecimentos sobre futebol.


Ela destaca que sua experiência ilustra como a misoginia não se limita às arquibancadas, mas acompanha as mulheres também em outros ambientes, tornando o futebol um território constantemente disputado.


Segundo a treinadora e pesquisadora Silvana Goellner, a misoginia presente nas torcidas de futebol está relacionada a um processo histórico e estrutural que consolidou a ideia de que esse espaço pertence aos homens. Essa percepção contribui não apenas para a exclusão das mulheres das arquibancadas, mas também para a naturalização de práticas discriminatórias e violentas direcionadas às mulheres e também à população LGBTQIAPN+.


Torcidas brasileiras entoando músicas homofóbicas nas arquibancadas . Torcidas do Flamengo, Vasco e Corinthians. FONTE: Reprodução/YouTube.


A autora destaca que o futebol foi historicamente construído como um ambiente de afirmação da masculinidade, o que torna fundamental desconstruir a noção de que as mulheres não pertencem a esse universo. Para ela, o esporte deve ser compreendido como um espaço acessível a todas as pessoas, independentemente de gênero, classe social, cultura, religião ou deficiência. Embora esse reconhecimento ainda represente um desafio, ele é essencial para que as torcedoras sejam efetivamente valorizadas e reconhecidas como parte integrante da cultura futebolística.


“A presença da mulher no mundo do esporte representa, ao mesmo tempo, ameaça e complementaridade: ameaça porque chama para si a atenção de homens e mulheres, dentro de um universo construído e dominado por valores masculinos, e porque põe em perigo algumas características tidas como constitutivas da sua feminilidade. Complementaridade porque parceira do homem em atitudes e hábitos sociais, cujo exercício simboliza um modo moderno e civilizado de ser.”
Silvana Goellner, em “Mulher e esporte no Brasil: entre incentivos e interdições elas fazem história”

Nos jogos, Fernanda Lipke afirma ter conhecimento, por meio de colegas do TricoFlores, da existência de placas em setores como o Sul com a frase “Se não for cantar, saia”. Impõe-se, assim, um modo de torcer considerado “correto”, que exclui outras formas de manifestação nas arquibancadas, situação que também foi vivenciada pelo coletivo a partir da adesão aos leques. Esse senso comum dita a forma de ocupar a arquibancada, atravessando questões de gênero, sexualidade e performance.


Entre as torcidas, até mesmo o modo de se vestir é regulado. O uso de peças como saias, tops ou bolsas tiracolo é mal visto, e quem as utiliza muitas vezes é hostilizado por isso.


“Há tipos de bolsa que você não pode levar para o Maracanã. Bolsa tiracolo, por exemplo. Você não pode ir com o cabelo pintado, com a blusa amarrada. Tem que seguir o tipo de vestimenta que eles [as torcidas organizadas] mandam”, relata Gabriela Barros, representante do coletivo FlaCalcinha.


Essas regras “invisíveis” do estádio são reproduzidas não apenas presencialmente, mas também em grupos e páginas do Instagram e do Facebook, onde torcedores fiscalizam, por meio de comentários e publicações, comportamentos, aparências e formas de torcer consideradas aceitáveis.


Para além de episódios isolados de assédio ou hostilidade, os relatos das torcedoras revelam a existência de mecanismos cotidianos que regulam quem pode ocupar determinados espaços e de que maneira isso deve ser feito. Por meio de hostilidades, assédio ou normas implícitas, a presença feminina ainda é constantemente questionada. Diante disso, cresce a cobrança por uma resposta mais firme dos próprios clubes.


As falhas na comunicação institucional

Embora o número de assédios e ataques misóginos seja crescente, o amor pelo futebol não diminui no coração das torcedoras. Essa paixão pode ser observada pelo crescimento de coletivos femininos no futebol, além da criação de departamentos femininos nas torcidas organizadas, que evidenciam a vontade das mulheres de ocupar esse espaço.


Ambos os movimentos são de extrema importância para o aumento da presença feminina nas arquibancadas e buscam um espaço onde as mulheres possam se sentir seguras e acolhidas em um local que historicamente também lhes pertence.


Ademais, a misoginia é intrínseca à sociedade brasileira e, por esse motivo, não é possível acabar com esses comportamentos de maneira rápida e 100% eficaz. Em razão disso, o surgimento e a manutenção de movimentos femininos tornam-se cruciais para que haja uma diminuição dos comportamentos e pensamentos misóginos na sociedade, principalmente em espaços dominados por homens.


O reforço dessa causa por parte dos times também se mostra de muita importância para o reconhecimento dessas minorias e das violências sofridas por elas. Fernanda Marques destaca que a comunicação dos clubes se mantém ainda muito institucional e protocolar, feita apenas em datas específicas.


“Sentimos, sim, falta de ações para além disso que realmente busquem mudar essa realidade. Inclusive, em relação à comunicação interna dentro do estádio, onde são necessárias respostas rápidas. […] Se você chega ali e acontece algo com você, não sabe como agir imediatamente. Apesar de existirem as delegacias das mulheres nos estádios, tenho certeza de que posso pegar várias mulheres, perguntar a todas elas, e elas não vão saber o que fazer numa situação dessas”, destaca a representante do Fogazelas.


Fernanda reforça que esse desconhecimento advém da falta de uma comunicação clara, que ignora a vulnerabilidade da situação, evidenciando, assim, a falha de comunicação dos clubes ao tratar desses assuntos com o público.


“A sua cabeça já vai estar passando por um milhão de coisas, para você ainda procurar o que precisa fazer? Essas informações nunca estão ali na mão, grudadas na parede, à vista, sabe?”, afirma.


Por mais que os clubes cariocas mantenham contas ativas e se engajem em diversas pautas sociais, ainda há uma falta de comunicação clara com os torcedores, principalmente quando a motivação é abordar casos de violência dentro e fora dos estádios, como no ocorrido com os leques.


Entrevista com Soraya Barreto, pesquisadora e escritora do livro "Mulheres no campo".

A equipe de reportagem procurou os times para saber mais sobre a falta de um pronunciamento quanto aos ataques recentes direcionados aos coletivos femininos, mas, até o momento da publicação, a equipe não obteve retorno de nenhum dos quatro principais times do Rio de Janeiro: Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco.



1 comentário


febulhoes
há 2 dias

👏🏻👏🏻

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