´Feito Pipa`: André Araújo fala sobre criação e roteiro

Entrevista realizada em março de 2026, por Lívia Vale.

André Araújo é mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará e realizador audiovisual. Ele assina o roteiro do filme Feito Pipa, escolhido para representar o Brasil na disputa por uma indicação a Melhor Filme Internacional no Oscar 2027.
Eu brinco que a relação do Gugu com a avó é muito inspirada na minha relação com a minha. No Ceará usamos um termo chamado arenga. A arenga é uma forma de amor que se manifesta pela implicância. Os dois arengam o filme todo, se implicam o tempo inteiro. É a maneira deles dizerem “eu te amo”.
Como surgiu a ideia de Feito Pipa?
Feito Pipa foi um projeto que eu desenvolvi no laboratório Cena 15, no Porto Iracema das Artes. Era uma ideia que eu já vinha, não desenvolvendo, mas era um objeto de desejo, sabe? Era uma inquietação que partia também de um lugar muito íntimo, muito particular, da história de um menino que refletia, inclusive, parte das minhas vivências, das minhas experiências, aquilo que eu vi, vivi, mas também aquilo que eu fantasiei, aquilo que eu gostaria de ter vivido.
É um personagem, porque no geral sempre me interessaram esses personagens que são meio como vagalumes, né? Que sobrevivem apesar da escuridão, assim como o Pacarrete, que estão lutando para sobreviver
Portanto, eu acho que essa semelhança entre o Gugu e a Pacarrete está nesse lugar, nessa categoria que eu chamo de personagem vagalume, porque eles estão ali brilhando apesar de tudo, apesar da escuridão, apesar desse sistema que é feito para suprimi-los, para fazer com que eles não existam, mas eles estão ali resistindo.
Mas voltando à questão da ideia, a ideia surgiu quando eu conheci uma cidade submersa no Rio Grande do Norte, que era a cidade de São Rafael. E aquele universo, aquele cenário, me impactou muito. Conversando com as pessoas que moravam naquela cidade, eu me deparei com os impactos que uma obra daquele tamanho causava na vida daquelas pessoas, não somente de forma econômica ou os impactos visíveis, mas os impactos mais simbólicos, que são os subjetivos. Isso me despertou o interesse de pensar aquele lugar como lugar de memória.
E foi a partir daí que eu comecei a usar esse cenário da barragem, da cidade que emerge, com a ideia de memória e com a ideia da doença do Alzheimer, que é aquilo que fica. Você vê uma barragem secar e, aos poucos, a antiga cidade vai emergindo. E no Alzheimer é um processo similar: a partir do momento que a doença vai agravando, existe algo que fica, e esse algo que fica muitas vezes é algo tão pequeno. Não é mais a lembrança, não é mais a memória do dia a dia, mas é um resquício do que aquela pessoa foi.
E isso cruzando também com a ideia, porque o processo de criação é muito complexo. O filme, para mim, às vezes se revela a partir de uma imagem, de uma memória, de um desejo. E, nesse caso, em Feito Pipa, foram essas imagens, essa ideia também da criança viada, que dialoga com a minha vivência pessoal. Eu cruzo essa ideia dessa criança que precisa existir, resistir para continuar vivendo, continuar sobrevivendo, e encontro essa cidade que mingua, essa memória que mingua e essa cidade que emerge. Eu acho que é mais nesse lugar.
Assim como você falou, passou por diversos laboratórios de roteiragem, mais de um. E como foi o processo de amadurecimento desse texto?
Eu sinto que, como o processo é muito solitário, esse roteiro eu escrevo sozinho, é um projeto meu que eu compartilho com Alan. Em outros projetos com Alan, ele chegava com a ideia. Por exemplo, no Pacarrete, quando eu entrei, o projeto já estava se encaminhando, já tinha sido aprovado em edital. Nesse caso foi o inverso: é um projeto meu, que nasce de mim, que eu compartilho com Alan como diretor. Ele entra quando o projeto já está encaminhado. Ou seja, é um projeto meu, que tem muito de mim.
Claro que eu e o Alan temos uma afinidade temática muito grande. A gente trabalha junto não só nesse projeto; já trabalhamos em série, telefilme e diversos outros projetos. Existe uma química criativa. No caso de Feito Pipa, esse processo realmente é muito solitário. Você passa a conviver com esses personagens, com essas ideias, e é muito importante esse momento de troca, da gente colocar o texto à prova, entender como ele se relaciona com o outro, que são os nossos primeiros espectadores.
Os laboratórios fizeram essa função de confronto de ideias, de fazer com que a gente amadurecesse o nosso próprio olhar no contato com o outro. Que a gente consiga testar os personagens, entender como as pessoas estão vendo, lendo, percebendo, porque essa é a primeira audiência.
E também entender esse lugar, porque cada um tem seu repertório. Quando eu exponho o meu roteiro à leitura de outra pessoa, isso faz com que ele se cruze com outras leituras, com outras visões. Ao longo do processo, muitas vezes eu tive momentos de clareza. Um que eu sempre destaco foi no laboratório Cena 15, o primeiro laboratório pelo qual o projeto passou, quando tive a tutoria de Karin Hanh. Em um momento ele leu o roteiro e disse: “André, o Gugu é o menino que você não conseguiu ser. É o menino que você poderia ter sido”.
Nesse lugar, o Gugu não sou eu, mas de certa forma eu me realizo nele. Essa força, essa coragem, essa ousadia que essa criança tem é, de alguma maneira, a força que eu gostaria de ter tido e que, por inúmeras questões, eu não consegui ter. Isso mudou totalmente a forma como eu olhava para esse personagem. A partir daí foi uma virada.
Por isso é muito importante. É um exercício difícil, porque você está sujeito à crítica, completamente exposto. Eu acho que o momento em que um roteirista está mais exposto são nessas primeiras leituras. Você tem que ter essa consciência e também a capacidade de filtrar.
Porque qualquer filme pode ser muitas coisas, mas você precisa ter certeza do filme que quer fazer. Se você não souber filtrar, você escuta uma pessoa aqui, outra ali, e às vezes quer satisfazer o desejo desse leitor. Se você não tiver consciência do que quer contar, acaba se perdendo nesse caminho.
É importante para esse amadurecimento crítico: ouvir, retornar ao projeto com outro olhar, mais amplo, mas sem se perder daquilo que é o seu propósito, dos seus objetivos. No caso do Gugu, eu tinha muitas certezas. Algumas foram desmontadas ao longo do caminho, outras foram consolidadas. Ali você vai testando caminhos, mas também descobrindo qual é o seu caminho. A própria história vai te dizendo, vai se construindo.
Houve algum momento especial durante a escrita de Feito Pipa em que você sentiu que a história tinha ganhado essa forma?
Eu tive outros momentos importantes também. No Cena 15 eu senti muito essa necessidade de trazer o projeto para mais próximo de mim. No começo ainda existia uma certa distância entre o André e a história.
Mas aos poucos eu fui sentindo a necessidade, também por causa do que eu escutei no laboratório, desse espelho invertido entre o personagem e eu. Por que não me apropriar dessa história também? Emprestar um pouco do meu olhar, da forma como eu desejo olhar para o sertão.
Porque eu sinto muito essa necessidade quando estou escrevendo sobre o sertão: propor um olhar novo sobre essa região, sobre essa paisagem. Não apenas repetir o que já vem sendo reproduzido incessantemente. Por isso eu brinco que o sertão de Feito Pipa é um sertão que está dentro de mim. É um sertão que eu vivi, que eu compartilhei com os meus. E isso é o que faz com que o filme seja potente, porque tem esse olhar particular, que é somente meu. Essa história só poderia ser contada por mim.
Não estou contando a minha vida, não tem nada da minha biografia ali. Mas é um filme que carrega o meu olhar, é um filme sonho. E o sonho representa muito mais a gente do que qualquer outra coisa, é esse lugar do inalcançável, do nosso inconsciente.
Depois eu tive a mentoria na Incubadora Paraíso, que também foi muito importante para o projeto. Foi durante a pandemia, quando estávamos completamente isolados do mundo, e eu escrevendo um roteiro, que já é um processo muito solitário.
Nesse momento tive a oportunidade de trocar com a Camila Agustini, que foi a consultora do projeto. Ela veio como uma mentora, acompanhando durante seis meses não só as questões do roteiro, mas também as questões da vida que estávamos vivendo, dessa realidade cheia de inseguranças. Tudo isso atravessou o processo e também a obra.
Entendi. E o filme está tendo uma recepção muito positiva no festival. Lá no Festival de Cinema de Berlim ele foi premiado com o Grand Prix da Mostra Generation K+. Como foi viver esse momento tão especial e ver o público recebendo a sua obra dessa forma tão calorosa?
Para a gente, estamos sempre no lugar da insegurança, da dúvida, porque a gente nunca sabe como o outro vai compreender o que você fez, o que a gente fez. Isso acontece ao longo de todo o processo do cinema, porque quando você escreve, o diretor vai fazer uma leitura sobre esse filme, a equipe técnica também, cada um faz a sua leitura.
E quando a gente tem essa oportunidade de exibir o filme pela primeira vez, é um momento muito simbólico. É o momento em que o filme vai se conectar com o público. A gente faz filmes para as pessoas e quer que elas se emocionem, se conectem, torçam pelo personagem, vivam aquela história, acreditem nela.
Além do prêmio, que é incrível, e das críticas muito positivas, ver que o público no final da sessão aplaudiu o filme durante oito minutos de pé e que as pessoas vieram conversar com a gente falando do quanto o filme as tocou, isso foi o mais simbólico para a gente, o mais bonito. Ver esse encontro do filme com o público, ver que aquela ideia que eu venho desenvolvendo desde 2019 encontrou finalmente o seu destinatário. Isso dá aquela sensação de dever cumprido. Finalmente conseguiu cumprir o propósito.
Outro troféu que também receberam lá em Berlim foi o Urso de Cristal, decidido pelo júri infantil, que acredito estar um pouco na faixa etária do Gugu. E toda a história dele conversa muito com esse público, especialmente com jovens e crianças da comunidade LGBT. Como você enxerga a importância do Gugu para esse público jovem?
É muito legal porque é um filme que não conversa somente com o público jovem, mas também conversa com os pais. Tivemos uma recepção muito bonita de todos os públicos: crianças, jovens, pais, avós que estiveram presentes nas sessões.
Isso é o mais interessante de como a história também vai criando os seus próprios públicos. No primeiro momento, quando a gente está escrevendo, até pensa: “Esse filme é para isso”, principalmente quando estamos escrevendo um projeto para edital e precisamos definir público. Só que o filme, por si só, vai definir quem é o seu público.
É muito importante porque essa história faz com que as pessoas vejam esse personagem, que é alguém que podemos encontrar na rua, que pode ser nosso filho, primo, irmão. A gente consegue enxergar nessa criança as crianças com quem convivemos e também a nós mesmos.
Um senhor de mais ou menos 60 anos chegou para mim e disse: “Olha, eu consegui me enxergar muito nesse menino, porque eu era uma criança afeminada, uma criança viada”. Ele era brasileiro e mora em Berlim. E curiosamente ele disse que era apaixonadíssimo por futebol.
Ele conseguiu se reconhecer, e isso é bonito: quando as pessoas conseguem se reconhecer na tela. Mesmo quem não é LGBT consegue criar empatia pelo personagem, entender a forma como ele se expressa, como se projeta no mundo e como isso é bonito sem precisar se apagar ou se diminuir para caber numa sociedade que oprime quem não segue padrões.
E é bonito também porque não é um filme que fica rotulando: “É um filme LGBT”. Não é. É um filme com o qual qualquer pessoa pode se conectar. Além das questões de identidade, também tem as questões de memória e as relações familiares.
A própria relação do Gugu com a avó. Muitas pessoas disseram: “Minha avó tem Alzheimer”. Isso também cria uma conexão. Essa relação entre avó e neto é muito particular, mas também muito universal.
Li uma crítica da Variety que destacou muito a personalidade do Gugu, que é muito singular, espontânea e determinada. Como foi a construção desse personagem, da identidade e da voz própria dele?
O Gugu passeia entre os gêneros. Ele não é simplesmente uma criança — ou simplesmente uma criança viada, que é um termo que a gente usa e tem se reapropriado. Ele passeia entre os gêneros. Ao mesmo tempo em que é uma criança sensível, que gosta de se maquiar, de se enfeitar, vestir roupas coloridas, dançar e se expressar através da roupa, da música e da dança, ele também se expressa através do futebol. O sonho dele é ser jogador de futebol, que é um espaço masculinizado onde alguém como ele normalmente não tem lugar.
E ele se impõe ali. Ele é como a flor que brota do asfalto, comparando com o poema do Drummond. A beleza dele está justamente nessa complexidade, nesse passeio entre o universo masculino e o feminino.
Era meu desejo complexificar esse personagem. Ele é uma criança ousada, atrevida, inclusive violenta em alguns momentos, um signo do masculino, mas que convive com outros signos dentro dele. Acho que aí está a força dele.
Ele não é uma coisa só. Não é somente uma criança afeminada. Ele é uma criança que sonha em jogar futebol e que é muito bom nisso, inclusive um dos melhores jogadores do time.
A ideia era fazer com que o personagem fosse abrindo camadas, que a gente fosse conhecendo ele para além daquilo que ele expressa. Existe o íntimo e existe o social. Existe a forma como ele vê o mundo, como confronta esse mundo e como vai lidando com os problemas.
É também um filme de amadurecimento. Chega um momento em que ele precisa cuidar da avó. Ele se adultiza. Ele troca de papel com essa mulher: quem deveria cuidar dele passa a ser cuidado por ele. Porque ele precisa desse lugar de conforto, desse refúgio que é a avó, essa mulher que permite que ele seja quem é.
Sobre a relação dele com a avó Dilma e o pai Batista, que são relações delicadas e cheias de camadas, o que você destacaria na construção desses relacionamentos?
Eu brinco que a relação do Gugu com a avó é muito inspirada na minha relação com a minha. No Ceará usamos um termo chamado arenga. A arenga é uma forma de amor que se manifesta pela implicância. Os dois arengam o filme todo, se implicam o tempo inteiro. É a maneira deles dizerem “eu te amo”.
Sempre ali confrontando, mas num lugar de afeto. Por isso é um filme muito afetuoso. A gente entende por que esse menino não quer largar esse mundo que o protege e o acolhe.
Por outro lado temos o pai, que é o obstáculo para esse menino ser quem é. Mas eu tentei não vilanizar o pai, Batista. Seria muito fácil cair naquele estereótipo do pai homofóbico.
Na verdade é um pai que não sabe ser pai daquele menino. Ele precisa aprender a ser pai daquela criança. É alguém que também é vítima dessa sociedade e reproduz preconceitos que não consegue compreender.
Ao longo do filme vemos esse pai tentando se aproximar. Existe uma distância enorme entre eles, quase como uma barragem separando os dois. Mas ao longo da história eles precisam compartilhar esse mesmo mundo e se compreender. A ideia era justamente não criar um vilão, mas mostrar a complexidade desse pai.
Tem alguma cena do filme que seja mais especial para você ou algum detalhe que gostaria que o público prestasse mais atenção?
Tem muitas cenas. Algumas ficaram de fora na montagem, porque quando o filme chega nessa fase ele ganha vida própria.
Mas uma cena que acho muito bonita é quando Gugu ensina a avó a cantar uma música em inglês, que era a música preferida da mãe dele, que já faleceu. Como a memória dela vai se apagando com o Alzheimer, existe esse retorno ao passado. E a música é uma das últimas coisas que permanecem na memória de quem tem a doença.
Na história, o Gugu é uma criança órfã. A mãe morreu numa situação de violência. E quando a doença da avó avança, ela começa a ouvir constantemente essa música que lembra a filha. Essa música vira um signo dentro do filme. É uma cena muito bonita. É uma música em inglês, e o Gugu ensina a avó a cantar.

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