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‘Feito Pipa’ é o representante brasileiro no Oscar 2027

Foto do escritor: Lívia Vale
Lívia Vale
há 16 horas
4 min de leitura

Por Lívia Vale

Matéria publicada originalmente no site The Sentinel by Yuvoice. 


Yuri Gomes e Lázaro Ramos. Reprodução: Jamille Queiroz
Yuri Gomes e Lázaro Ramos. Reprodução: Jamille Queiroz

“Feito Pipa”, drama queer nacional, foi escolhido pelo Brasil para representar o país na categoria Melhor Filme Internacional do Oscar 2027. A premiação será realizada no dia 14 de março de 2027. 


No começo desse ano, o filme se coroou como vencedor do Grand Prix na mostra Generation Kplus do Festival de Cinema de Berlim em 2026. A trama acompanha a história de um menino queer de onze anos que sonha em ser jogador de futebol enquanto enfrenta o avanço do Alzheimer de sua avó.


“Não é um filme que se rotula apenas como LGBT. É um filme com o qual qualquer pessoa pode se conectar. Além das questões de identidade, também tem as questões de memória e as relações familiares.”, afirma André Araújo, roteirista do longa.


O drama pensado por André Araújo e dirigido por Allan Deberton acompanha a vida de Gugu, um menino queer de onze anos que sonha em ser jogador de futebol. Criado de forma amorosa e livre por sua avó, Dilma, a relação de cuidado parece se inverter quando o avanço do Alzheimer pesa sobre ela. Com medo de ter que morar com o pai, que não o entende como ele é, Gugu tenta esconder de todos o que está acontecendo.


O filme é protagonizado por Yuri Gomes, Teca Pereira e Lázaro Ramos – que esteve presente nas premiações Oscar 2026, acompanhando seu parceiro de longa data Wagner Moura. Além disso, o elenco conta com nomes como Carlos Francisco e Georgina Castro.


Entre as críticas feitas, muitas destacam a personalidade singular e determinada de Gugu. Em entrevista exclusiva, o roteirista André Araújo disserta sobre a construção do personagem:


“O Gugu passeia entre os gêneros. Ele não é simplesmente uma criança viada”, destaca André. “Ao mesmo tempo em que é uma criança sensível, que gosta de se maquiar, de se enfeitar, vestir roupas coloridas, dançar e se expressar através da roupa, da música e da dança, ele também se expressa através do futebol. O sonho dele é ser jogador de futebol, que é um espaço masculinizado onde alguém como ele normalmente não tem lugar.”

Premiação em Berlim


O Festival de Cinema de Berlim aconteceu entre os dias 12 e 22 de fevereiro. O filme foi exibido na mostra Generation Kplus, segmento que prestigia obras que abordam narrativas sobre amadurecimento e crescimento.


Após a mostra, “Gugu’s World” teve uma recepção calorosa e levou para casa dois prêmios. O Grande Prêmio do Júri foi concedido por um júri internacional dedicado ao melhor longa-metragem que aborda o universo infantojuvenil. O segundo prêmio da noite foi o Urso de Cristal, prêmio decidido por votação do júri infantil.


“A sessão aplaudiu o filme durante oito minutos de pé e as pessoas vieram conversar com a gente falando do quanto o filme as tocou […] Um senhor de mais ou menos 60 anos chegou para mim e disse: ‘Olha, eu consegui me enxergar muito nesse menino, porque eu era uma criança afeminada, uma criança viada’ ”, relata André.


Entre os espectadores, a relação entre Gugu e Dilma também foi bem recebida. André Araújo descreveu a relação deles usando o termo “arenga”, uma expressão brasileira da região do Ceará que significa uma forma de amor que se manifesta pela implicância. “É a maneira deles dizerem eu te amo”, concluiu André.


A crítica de cinema Natália Bocanera pôde assistir ao filme durante a mostra de Berlim e contou a nossa equipe sobre sua experiência:


“Acredito que o ponto que mais marca em “Feito Pipa” é a construção da relação belíssima entre avó e neto e a liberdade com que se expressam. A ideia do encontro de extremos carrega consigo uma suposição de choque e embate. Entretanto, Gugu e sua avó Dilma nunca se repelem, mas se complementam ao ponto de emanarem juntas uma luz tão forte que tudo que queremos é não desviar o olhar dessas existências”, conclui.

Natália também destacou o papel de Lázaro Ramos, afirmando considerá-lo um dos melhores atores brasileiros e ressaltando como é impactante vê-lo interpretar um papel tão diferente do habitual: o de um pai que oprime o filho, tem dificuldade de se conectar com ele e, ainda assim, carrega a complexidade de amá-lo de algum modo, aproximando o personagem da realidade de muitas famílias brasileiras.


O sertão e o Alzheimer


Durante a entrevista, André Araújo revela a relação entre a narrativa do filme e o sertão brasileiro, cenário que ganha espaço na história.


Segundo Araújo, a ideia do projeto surgiu após o contato com a antiga cidade de São Rafael, no Rio Grande do Norte, que se encontra hoje submersa por uma barragem. Os cenários e moradores revelaram que os impactos atingem também uma dimensão simbólica e subjetiva na vida das pessoas.


Com isso, André passou a enxergar o local como um espaço de memória. A cidade, que aparece apenas quando o nível da barragem baixa, tornou-se uma metáfora para o Alzheimer.


“Você vê uma barragem secar e, aos poucos, a antiga cidade vai emergindo. E o Alzheimer é um processo similar: a partir do momento que a doença vai agravando, existe algo que fica, e esse algo que fica muitas vezes é algo tão pequeno. Não é mais a lembrança, não é mais a memória do dia a dia, mas é um resquício do que aquela pessoa foi.”

A relação entre Gugu e Dilma é diretamente afetada com o avanço da doença, e parte central do filme é o amadurecimento que advém disso. “Chega um momento em que ele precisa cuidar da avó. Ele se adultiza. Ele troca de papel com essa mulher: quem deveria cuidar dele passa a ser cuidado por ele.”, conclui.


“Feito Pipa” chega aos cinemas brasileiros em 5 de Novembro. 



Leia na íntegra a entrevista com André Araújo AQUI.

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